HARPER’S BAZAAR
fevereiro, 2015

A FASHIONABLE LIFE | MARINA LINHARES

 

Rota de fuga aos finais de semana, a casa de campo da decoradora paulistana é um oásis com alma e muita personalidade. Um lugar para relaxar, receber amigos e aproveitar a natureza.

 

Por Dudi Machado • Fotos Romulo Fialdini • Set design Tissy Brauen

 

Fugir, meta e desejo de todos os paulistanos que podem. Pelo menos por um final de semana. Mas criar um local que seja oásis, não mera reprodução da vida da cidade no campo, é caso raro. Ë essa a alma que preenche a morada da decoradora Marina Linhares e sua família, fora da capital. Localizada na Fazenda Boa Vista, nos arredores de Porto Feliz, no interior paulista, a casa tem projeto do estrelado escritório de arquitetura de Bernardes e Jacobsen, responsáveis pelas medidas mais do que precisas, que combinam bem a modernidade das linhas retas e dos amplos espaços vazios com móveis e outros objetos que privilegiam o conforto, sua prioridade absoluta. Tudo em sintonia, sempre.

 

“Separo decoração de arquitetura. Brinco que decoração é entrar de luvas e bolsa num bom projeto”

 

“Sou decoradora, separo decoração de arquitetura. Brinco que decoração é entrar de luvas e bolsa num bom projeto”. De fato, as duas artes formam uma equação perfeita por ali. “Até passarinho já fez ninho no meu capacete, essa é uma casa aberta, vivida. Uma casa do meu marido [o empresário de turismo Tomás Peres], das minhas filhas [Teresa, 9 anos, e Antônia, 13], de comer pizza com a mão em noite de sábado, de andar descalço, receber amigos”, define, numa espécie de mantra de sofisticação e aconchego que transcende os pilares da casa, e que aplica à sua vida.

 

Nascida em São Paulo, se mudou, ainda criança, para Campo Grande, Mato Grosso do Sul – sua família tem fazendas na região. “A melhor parte de mim vem dessa fase, meio longe de tudo, com uma simplicidade verdadeira, a vida entre os meus, tudo o que eu mais aprecio, relembra. Voltou para a capital adolescente, formou-se em Administração de Empresas pela PUC. Em paralelo, se matriculou em um curso de decoração na Escola Panamericana de Artes. Foi assistente da decoradora Martha Vidal e, em meados de um ano, alçou voo solo. Nunca mais parou.

 

Hoje, Marina se prepara para celebrar os 20 anos de vida de seu escritório, localizado em uma charmosíssima casa no coração do Jardim Paulistano. Workholic assumida, lançou também um livro, Morar e Viver. “É mais do que a história dos meus projetos”, explica. É a síntese de seus gostos e escolhas. A publicação em formato coffe table, é dividida em seções que representam sentido e que inspiraram ainda a criação de quatro perfumes de ambiente, Aconchego, Convício, Sabor e Intimidade, que retratam suas memórias afetivas. Duas novas fragrâncias, Lavandinha e Mato, acabam de chegar às prateleiras de lojas especializadas.

 

Todos esses sentidos, obviamente, permeiam seu projeto campestre. A casa tem um perfume orientalista delicado, as ripas de madeira denunciam, timidamente, a influência que, de tão sutil, quase passa despercebida. “Queria uma casa concisa, térrea, com uma sala que dominasse totalmente o ambiente, uma casa com pátio interno. Sou apaixonada por plantas, nada me faz mais feliz do que estar cercada por elas – o paisagismo certeiro de Isabel Duprat contemplou exatamente esse meu desejo”, conta. “Quando fiz um projeto para a Casa Cor, anos atrás, o tema era uma casa no campo. Adorei. A partir daí, comecei a sonhar muito e a garimpar móveis e objetos que, hoje, estão espalhados por aqui. Tudo é um grande espelho do meu estilo. Quando tenho um cliente, naturalmente, mergulho no universo dele. Na minha casa, pude ser 100% eu mesma, me vejo nos detalhes, na mistura de móveis de design, como os de Hans Wegner, com peças que são herança de família”, sintetiza.

 

Da tela azul da artista brasileira Sandra Cinto, que domina a sala de estar, passando por peças do extinto antiquário de Paulo Vasconcelos, as coisas aqui se encaixam sem esforço algum. Diversidade em sintonia fina. Seus looks, tão diversos quanto têm o mesmo efeito natural. Um vestido de alta-costura de Clodovil, herança de sua avó Cida Magalhães, convive, lado a lado, com criações de Azedine Alaia e Céline. Ao lado, um caftã turco de outros tempos. Excentricidade ocasionais… Básica no dia a dia. Marina é mulher de jeans e camisas de linho, seu uniforme, reflexo do lado prático dessa pisciana que, na verdade, investe mesmo em memórias afetivas. No campo ou na cidade.