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Desencaixe

Casa Vogue, 05/2017

Por que limitar a natureza ao exterior se é possível pisar na terra, cruzar o verde ou ver o pôr do sol sem saber quando se está dentro ou fora de casa? Eis a questão do projeto do Jacobsen Arquitetura no interior paulista.

Texto Carol Scolforo • Fotos Fernando Guerra/Divulgação

“O traço vem do terreno, de onde se põe e nasce o sol ou por onde circula o vento. É a geografia que revela o desenho” Paulo Jacobsen

– À esquerda, o living é composto por sofá da Olho Interni revestido de linho e pela poltrona Sapão, design Fernando Mendes, na Dpot; e, abaixo, o espelho-d’água margeia a casa em vários pontos, afinado com o paisagismo de Isabel Duprat. Nas páginas anteriores, vista ;área do deque de madeira teca que acomoda a família em espreguiçadeiras ao redor da piscina, dotada de degrau revestido de pedras naturais.

– Vista da fachada dos quartos, voltada para o fundo do terreno, revela a amplitude horizontal da casa, cujo desenho foi totalmente determinado pelas características do local, segundo os arquitetos.

“Em dez anoso refúgio estará mimetizado à natureza. A intenção é que ele esteja bem conectado à terra, que as crianças sejam livres para acessar o verde sem sair dali” Bernardo Jacobsen

– Nesta passagem, o jardim e as estruturas de madeira abertas à luz natural revelam os poucos limites entre os interiores e a área externa da piscina.

Em São Paulo, a vida se verticaliza. Atos como pisar na terra ou ver ângulos que não sejam retos podem se tonar artigo raro. É nos fins de semana, ao pegar a estrada em direção ao condomínio Quinta da Baroneza, em Bragança Paulista, que uma grande família se despede das formalidades da capital. Os poucos limites entre a casa e o quintal resgatam a liberdade sufocada em dias acelerados. Tudo se descontrai nessa esfera invisível, nobre como a arquitetura imaginada por Paulo e Bernardo Jacobsen.

Para que os proprietários vivessem abraçados pelo verde sem sair da residência, os titulares do Jacobsen Arquitetura conceberam uma construção térrea, em dois pavilhões que se conectam pelo centro formando um “H”. Mais do que definir seu jeito de fazer em uma possível afinidade com o modernismo, as sensações regem os trabalhos do escritório. “O traço vem do terreno, de onde se põe e nasce o sol ou por onde circula o vento. É a geografia que revela o desenho”, diz um inspirado Paulo. Os 1.200m2 da morada dão conta de seis quartos, piscina, spa, sala de ginástica e um generoso living com varanda aberta ao horizonte, que obrigam a se concentrar no presente: o pôr do sol deve ser contemplado ou acaba em minutos. A amplitude possibilita ouvir o canto dos pássaros lá fora ou a ver a floração dos arredores, com paisagismo de Isabel Duprat. “Projetamos os vazios junto dos sólidos. Os jardins vêm antes da arquitetura. Em dez anos o refúgio estará mimetizado à natureza porque a intenção é que ele esteja bem conectado à terra, que as crianças estejam livres para acessar o verde sem que precisem sair dali”, aponta Bernardo.

Ao passar pelo espelho-d’água que cerca as entradas, a temperatura fica mais fresca. Chega-se ao estar, ao lado da cozinha, já que a família gosta de receber em clima despojado. Cores suaves e mobiliários de design brasileiro indicam uma reverência ao traço da dupla nos interiores que levam a assinatura de Marina Linhares. “Como as linhas são fortes e ao mesmo tempo leves, pensei em poucos e bons elementos. A qualidade e o conforto são o que mais interessa aos moradores, que usam intensamente a casa, têm senso estético apurado e colecionam boas obras de arte”, diz a arquiteta, indicando um work in progress.

A sustentabilidade é um ponto alto, que mostra como os Jacobsen não abrem mão de se recriar. “É um sistema construtivo que inventamos: penduramos a casa inteira em duas vigas de 50 X 60 m, sobre o edifício. Fica bonito, mas também tem uma lógica – é a maneira mais sustentável de se construir”, diz Paulo. Abaixo da laje, as estruturas de madeira revestidas por laminado de eucalipto dão identidade à obra. “Esta casa, assim como as outras, carrega valores do século 21. A gente precisa sair do século 20, das caixas. Desencaixar é a palavra”, acredita.

Sim, sair da caixa. O mundo está de olho nessa especialidade dos Jacobsen. Embora seu foco seja o Brasil, os arquitetos tocam projetos atualmente em Portugal, na Austrália, na Indonésia e na paradisíaca ilha de Mustique, no Caribe, onde Mick Jagger e Tommy Hilfiger espreitam na vizinhança.

“Esta casa carrega valores do século 21. A gente precisa sair do século 20, das caixas. Desencaixar é a palavra” Paulo Jacobsen.